19 de abril, Dia de Resistência: Povos indígenas chamam à união contra ataques à Amazônia

 

Etnias como Gavião, Guarani, Suruí, Awá, Guajajara, participaram de Etapas Locais do Seminário Carajás 30 Anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia oriental. Eles relataram consequências dos projetos aos povos da Amazônia e conclamaram a uma aliança em torno da floresta.

Demais povos tradicionais, acadêmicos e militantes sociais também chamam atenção para necessidade de uma articulação em torno de suas demandas, e veem no Seminário oportunidade de estreitar laços de resistência

Foto de Gilderlan Rodrigues, durante a Passeata de abertura da Etapa Santa Inês do Seminário Internacional Carajás 30 Anos

 

As Etapas regionais do Seminário Internacional Carajás 30 Anos, cuja Etapa Final acontece de 5 a 9 de maio no Campus da UFMA, em São Luís, vem contribuindo para aproximar os povos atingidos pelos projetos de desenvolvimento, que debatem temas que lhes são comuns, como o apoio dado pelo Estado à expansão capitalista na região, enquanto as populações são alvo de remoções, falta de infraestrutura (saúde, educação, segurança) e têm seus direitos cerceados. O professor Horácio Antunes ressalta: “esse é um dos principais objetivos do Seminário, articular os povos que passam por problemas semelhantes, para que os discutam e construam, juntos, dentro de suas possibilidades, alternativas às situações expostas”.

Nesse sentido, os povos indígenas que vêm participando do Seminário, destacam a importância dessa unidade. Para Kátia, do Povo Gavião, filha do Cacique Payaré – que não pôde participar do Seminário Local em Marabá por estar doente à época (veio a falecer dias depois, gerando grande comoção entre os povos da Amazônia, por sua história de resistência frente às imposições sofridas pelo seu povo desde a construção da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará), um dos impactos que os projetos têm causado é a desagregação dos povos indígenas. É a “desunião dos povos indígenas, provocadas por novos costumes. É o que está acontecendo. Não adianta tapar o sol com a peneira e dizer que não é impacto, porque é impacto. O jovem não se preocupa mais em falar a língua (indígena), tem vergonha. Tudo isso, para nós, a gente sofre”, disse, durante a Oficina sobre Questão Indígena, durante a Etapa Marabá do Seminário Carajás 30 Anos.

Observação semelhante foi feita por Flauberth Guajajara, em entrevista à TV Remanso, por ocasião da Etapa Santa Inês. Ele ressaltou que, “além da questão (dos impactos) ambiental, há a questão sociocultural”, cujas consequências em relação aos costumes são sentidas nas comunidades indígenas. Durante a Oficina em Marabá, outras opiniões convergiram para essa análise, observando a contradição já que, ao tempo em que novos modos de vida são impostos aos indígenas em razão do chamado desenvolvimento, das mesmas comunidades é cobrada uma postura “purista”, como se qualquer expressão desses novos costumes denunciasse a falta se uma prática genuinamente indígena (vestuário não-indígena ou falar em português, por exemplo).

Populações atingidas criticam apoio do Estado aos grandes projetos enquanto povos da Amazônia não recebem assistência e citam consequências dos grandes projetos

Kátia citou a ida da presidenta da República a Marabá para autorizar a construção de uma hidrelétrica no município (fato que recebeu destaque durante a Etapa Local do Seminário), apontando a possibilidade de, mais uma vez, haver deslocamentos compulsórios das comunidades. “Onde que esse povo vai morar (comunidades indígenas)? Vai para a cidade, que é o que tem. Não tem mais caça para a gente se alimentar, nem peixe. Foi assim que aconteceu com nossa aldeia lá em Tucuruí. Hoje os mais novos não sabem o que é (isso, essa história). É muito difícil. Hoje não temos paz, não se tem sossego. E essa é a nossa briga. Enquanto tivermos vida, vamos passando nossas lutas para nossos filhos, nossos netos e tataranetos.

Ainda durante a Oficina, o Cacique Elton Suruí criticou a presença ostensiva da Vale na região. “Tudo o que fala de minério a Vale está no meio. Tenho a certeza que o que nós temos de retorno é só mesmo a miséria. Temos conhecido várias aldeias, temos conhecido vários assentamentos e ainda não vi um projeto para alguém elogiar a Vale. Ao contrário, a gente vê famílias se deslocando daqui dos nossos interiores para as cidades, virando mendigo lá. Essas grandes empresas, as empresas quando elas vêm para nossa região, elas fazem divulgação de que vão gerar milhões de empregos. Só que quando a empresa é implantada na nossa região, já vem com os profissionais. Se pegar alguém daqui para trabalhar, é serviço braçal. Não tem vaga na empresa para uma pessoa ser maquinista. É catar pedra, é cavar buraco com picareta, quebrar pedra de meio manual. Então essa divulgação que eles fazem é enganosa. A questão nossa é muito relativa, tanto para o indígena, para o quilombola, ribeirinho, camponeses. (Há) a necessidade de reunir esse povo. A gente fica brigando, um grupo aqui, outro ali, e a gente vai se cansando. Ninguém aguenta ficar vinte dias em Brasília porque o custo é alto. O máximo que a gente aguenta é sete, oito dias. Então quando a gente sai, chega outro grupo (com outra demanda, ou demanda parecida, em vez de lutar juntos)”, disse.

Elton considerou ainda que ocasiões como como o Seminário Internacional Carajás 30 Anos servem para estreitar esses laços, para articular essas resistências. “Uma oportunidade dessa, que a gente está aqui, ela é única. Eu vejo que nós não estamos preparados para o debate com o não-índio. Mas se a gente não tiver a consciência de que é com desfaio que a gente vai vencer alguma coisa, e se acomodar dentro da aldeia, o tempo passa a gente fica velho, e o nosso futuro, os nossos filhos, as gerações que vêm, vão ficar esquecidos, e vão ser exterminados”, pontuou.

Durante a Etapa Belém, Edenilson, do MST, fez observação semelhante: “A gente também está querendo discutir como a gente pode construir um projeto de sociedade a partir dos de debaixo (dos atingidos). A devastação não é só ambiental, mas também das pessoas, destituídas de suas condições de vida”, afirmou, convocando: “Que todos possam se articular para ir para São Luís (Etapa seguinte do Seminário), que também vai se articular com outros espaços, como da África, porque não somos só nós que estamos sofrendo esse conjunto de espoliação como o hoje visto na Amazônia”.

Raimundinho, do Cepasp, também convocou os movimentos sociais e comunidades que participaram da Etapa em Marabá para caminharem no mesmo sentido: “Vamos organizar uma apresentação pública das propostas do seminário, e fazer a preparação para o seminário em São Luís, nos dias 05 a 09 de maio de 2014”, registrou no documento que redigiu como memória daquela Etapa.

Roseane Cardoso, que também falou à TV Remanso por ocasião da Etapa Santa Inês, também destacou a importância da articulação entre os grupos de atingidos por grandes projetos, promovida pelo Seminário: "Além dos impactos que temos em nossas comunidades, a gente vem para cá e vê pessoas que também sofrem os mesmos tipos de impactos", disse ela, que é pescadora e mora na comunidade Sítio do Meio, no município maranhense de Santa Rita.

Veja, a seguir, entrevista com Rosimeire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI/MA), uma das instituições que apoiam e participam ativamente do Seminário Internacional Carajás 30 Anos, como são vistas as consequências dos grandes projetos para as comunidades indígenas impactadas, e clique ainda para ver vídeos com a fala do Cacique Elton, a descrição da trajetória do Cacique Payaré, feita pela professora Sônia Magalhães (UFPA) e a reportagem da TV Remanso sobre a Etapa Santa Inês.