Etapa Belém: "Todo dia se faz luta na Amazônia"

Começaram nesta quarta-feira, 9 de abril, as discussões do Seminário Internacional Carajás 30 Anos, no âmbito da Etapa Belém, com a mesa redonda "A Amazônia no contexto da acumulação do capital", com o professor Aluizio Leal (UFPA), Ulisses Manaças (MST) e Luis Fernando Heredia (CIPCA), e com o professor Willian Santos de Assis (UFPA) como moderador.

O professor Aluízio Leal frisou a forma como a Amazônia é vista pelo avanço capitalista na região: um espaço para a exploração. Tal visão vem sendo fortalecida desde o século XVIII, intensificando-se a partir do século XIX. Ele destacou ainda o processo de modernização conservadora empreendido na região, em que esse processo de exploração é mantido, e se reflete sobre o processo de ocupação do território pelo grande capital. Nesse contexto, a região torna-se (e assim é vista como) exportadora de commodities (minério, soja, etc).

Manaças deu sequência ao debate, destacando a importância de se inserir a Universidade nas discussões sobre as resistências dos que se contrapõem e são atacados por esse tipo de visão. Ressaltou ainda que as intervenções a Amazônia vêm sendo feitas “de fora para dentro”, e não por seus povos. “É feita a partir da lógica de desenvolvimento do capital. Foi assim em seus ciclos de exploração, como o da borracha, o das drogas do sertão, etc”, naquilo que chamou de “processo de saque, em que a geografia é desenhada a partir dos interesses do capital”. E continuou: “Isso atropela inclusive a lógica de integração das culturas que compõem esse espaço. As iniciativas de integração são meramente econômicas, como a IIRSA. Essa lógica de integração, que tem por base extrair recursos, não significa integração para os povos da Amazônia: é conexão, é subordinação do território à lógica do capitalismo”, pontuou.

Manaças destacou também o arcabouço jurídico para essa intervenção, como as revisões dos códigos Mineral e Florestal brasileiros, este último para que, por exemplo, o agronegócio possa avançar para uma legislação reconstituída a partir dos interesses das grandes corporações. “A sociedade brasileira vem sendo sistematicamente derrotada nesse debate, ainda que as denúncias sejam feitas em nível mundial”, denunciou, apontando ainda os governos federal, estaduais e municipais atuando de forma conecta a esse controle do território, e a mineração como carro-chefe desse processo.

Como alternativa, afirma que é necessário se fazer a disputa ideológica, campo no qual o capital é mostrado como moderno e avançado e as populações como atrasadas. “Esse é o desafio central de construção e fortalecimento das identidades da Amazônia nesse processo de resistência e enfrentamento. As identidades devem ser respeitadas como sua grande riqueza. Outro desafio é o intercâmbio das experiências de resistência. Luta se faz cotidianamente na Amazônia: por indígenas; por populações pescadoras que são desrespeitadas pelo Estado; pelas periferias. Se o capital atua em frentes, as formas de resistência também precisam atuar em grandes frentes para unificar suas lutas”, asseverou.

Luis Fernando Heredia, do Centro de Investigação e Promoção do Campesinato (CIPCA), da Bolívia, demonstrou que os projetos de desenvolvimento na Amazônia são financiados pelo capital internacional. Ele apontou que, somente em 2011, América Latina e Caribe receberem mais de 153 bilhões de dólares, com a maior parte indo para o Brasil, num processo que chamou de "estrangeirização da terra na Amazônia". Ele citou ainda que a maior parte das 417 hidrelétricas construídas na América Latina estão em terras indígenas e territórios tradicionais. Citou que, na Bolívia, o avanço sobre as comunidades também não é diferente: 11 das 22 áreas protegidas estão afetadas pela exploração dos hidrocarbonetos, que aumentou no período de 2007 a 2014.

INUNDAÇÕES de 2014- na Bolívia, mais de 68 mil famílias estão atingidas. Sobre Santo Antônio e Jirau, hidrelétricas brasileiras, o Governo Central da Bolívia determinou investigação sobre efeitos da construção desses empreendimentos na Bolívia. Destacou ainda que, no Brasil, entre 2009 e 2012, mais de 60 lideranças indígenas foram assassinadas por defender seus territórios.

ESPERANÇAS - Heredia, entretanto, destacou que, mesmo nesse cenário, há esperança, e não apenas problemas. Nesse sentido, destaca a constitucionalização, na Bolívia e no Equador, do "BOM VIVER", como princípio ético e moral, uma proposta que nasceu dos povos indígenas.  Com esse conceito, a natureza, enquanto construção social, deve ser reinterpretada, rompendo com a concepção desenvolvimentista moderna, na qual ela é vista como recurso a ser domado.

O Viver Bem contempla ainda a reciprocidade e a convivência intercultural entre suas bases. "É estar bem com os demais e com a natureza. Uma concepção holística da vida que parte dos povos indígenas como resposta à crise civilizatória. É o direito à felicidade, explicada como a satisfação das necessidades materiais, socioespirituais. Perpassa a dimensão humana, coletiva e ambiental. É um processo revolucionário", explicou.

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